Eis que de momento me encontro vestido de tristeza.
Possuo corpo de homem, mas recuso me a aceitar o que pede o coração.
Não lamento, não choro, não consigo.
Nesta hora do nada, pesada, sombria, sufoco, perco a respiração.
Não sou nada.
Nem pedaço de mau caminho...
Quem disse que alguma vez o fui?
Esqueci me da violência sedutora de conhecer com olhos de criança os dias, de transpor a idade quando tomo consciência dela.
Foi isso, isso mesmo que me deixou assim!
Não sei o que será de mim nos próximos tempos...
Não sei o que pensarão de mim...
Não sei o que sentirão por mim sequer.
Perco a liberdade, perco a alma.
Recebo a guerra, ganho o medo.
Não quero perder nada.
Quero ganhar tudo...
Quero permanecer intocável á vida e as suas leis de ferro.
Quero simplesmente continuar a ser eu.
Não quero morrer mais uma vez e arrastar comigo quem me ama.
Quero ser homem com um coração de deus, e coragem de senhor da guerra!
Quero!
Vou!
Serei!
Nesta hora do nada, pesada, sombria, respiro fundo, ganho novo alento.
A separação traz consigo a certeza de que o amor existe, e de que este jamais acabará.
Não há como fazer escassear este sentimento no mundo.
O amor nunca acabará.
A distancia aliada a este nunca terminará.
Nem tão pouco as rugas que este nos deixa durante a vida.
Está pensado, escrito, provado, verificado.
O amor que alguém nos oferece, por ser tão inesperado e tão pouco merecido, não dará espaço para espanto que no-lo retirem o mais cedo possível.
Tudo parece ganhar asas ou bater a porta, definitiva ou temporariamente, quando nos sentimos suficientemente adequados.
Nunca possuímos inteiramente alguém, nunca o chegamos a fazer.
Recriamos o ser amado, e a única forma que encontramos de o prender a nos, é através da arte.
Por isso escrevo.
De mãos vazias, mas de memoria e pensamento em riste!
Se o ser amado está presente, mais difícil será preservar a sua imagem de presença, pois esta irá se sobrepor e enfraquecer a imagem que nos importa conservar dela.
Ao conservar a imagem de presença, com a distancia é lhe atribuída maior força, e por sua vez maior frustração, e desalento.
De tudo isto, conseguimos reconhecer facilmente que vale sempre muito mais, que o ser que amamos parta, para nos dar conta que conseguimos chorá-lo, lembrá-lo.
Não é apenas o ser amado que nos consta em falta, mas também nós mesmos.
É criada uma ausência própria, um não sentir em nos sentirmos nós.
Ao entregar parte de nós a outra parte, ao sermos parte de outra parte, é natural que ao não ser parte, não estejamos entregues a nós.
Tal como nos vemos reconhecidos, tal como nos vemos recriados.
Há quem diga que a distancia apaga o amor.
Há quem ache totalmente o contrario.
As duvidas passam e passarão sempre pelo mesmo:
"Será que ainda sente o mesmo por mim?"
"Será que ainda me encontro na sua memoria?"
Perguntas habituais, e oficialmente comuns entre apaixonados...
A saudade parece interminavél quando se gosta.
Não só a saudade de um passado, mas também de um futuro.
Já notaram que se pode igualmente sentir saudade de um futuro?
Sentir saudades de situações, de repetidas, ou quem sabe, de novas sensações, mas tudo isto pensando num tempo futuro.
A dor da ausência agradece á distancia, mas o amor cresce agradecendo muito mais a estas.

Quero escrever, mas a mão treme.
Não encontro sonolência em mim.
Apenas me pesa o corpo de tantas horas sem descansar.
Olho para o relógio que assinala as 05:42,
e a caneta faz magia.
Sangra sobre o imaculado papel.
A lusco fusco procura escrever.
Escrever palavras que me levam até longe...
Bem longe além mar.
Ai se eu soubesse fazer poesia,
o que não sofria eu...
Faz falta saber fazer poesia.
Poesia triste...
Faz falta saber viver a poesia.
Poesia triste...
Mas de que falo eu?
Já não basta contar os dias?
Viver os dias nesta latência de fazer da saudade algo que não me pode magoar?
Magoa, la isso magoa, e não adianta jogar com ela ao faz de conta.
Gostava que a mão parasse de tremer.
Gostava que o corpo parasse de doer.
Gostava de poder dormir.
Mas por vezes perco me neste desalento.
Quando este teima em subsistir...
Sento-me mais uma vez.
O local: O de sempre.
A razão: A mais distante e fria.
Não sou mais do aquele que olha para trás no tempo e que sente.
Não sou mais do que aquele que lembra.
Não sou mais do que aquele que olha para toda a magia corrida dos momentos que passei, dos momentos que roubei, á triste vida a sua fantasia.
Nunca sonhei, nunca fiz mais do que fazer de conta que sonhava.
Não poderia almejar o que não tinha lugar para mim e outras pessoas, visto que por vezes o espaço, de tão limitado que era, nos obrigaria a apertar.
Sinto uma vaidade em mim por já ter profanado uma ou duas vidas.
Sinto um abandono em mim por as ter vivido tão depressa...
É essa a sensação que fica.
Viver um amor tão curto.
Até o amor é descartável quem diria...
A aventura do amor traz consigo algumas certezas:
Interesse, descoberta, fascínio, regozijo, aborrecimento, e desinteresse.
Não há como escapar deste caminho descendente.
Não se ama para sempre.
Nunca tomei outro caminho se bem me lembro.
Estou velho.
Velho porque pesa em mim todo o fado de mil e uma aventuras, todo o fado de caminhar descalço e terminar sozinho.
Mas julguei me certo uma vez!
Uma vez mais certo do fracasso isso sim...
Quão ignóbil não me tornei eu...
Por não saber amar, por não saber dar parte de mim!
Resta-me contar ao silencio, e até por vezes aos desconhecidos transeuntes, estas minhas historias de consternaçao.
Fica o desalento vivo no rosto de quem as ouve, rola a lágrima pela pena voltada para mim.
Não nasci para saber dar, mesmo quando sentia amor dentro de mim.
Quando olho á minha volta, apenas vejo lugares de mim nas pessoas com quem me cruzo, nada mais do que um lugar inóspito e fechado.
Quem o fechou fui eu.
Quem se fechou fui eu.

Queres-me?
Aqui me tens.
Disse-te eu como quem se encontra distante do flagelo que nunca antes poderia descortinar, senão agora.
Já ecoava a noite entre castos lençóis, agora mordidos, agora rasgados, por corpos bem feitos de nudez.
Que mais podia eu querer, senão roubar a tua atenção para mim?
Concentrar toda a tua atenção apenas num ponto, numa alínea, em que inocentemente te pudesse dizer, o quanto faz sentido a tua existência em mim.
Disse-o, disse-o a bom som e firme voz.
Mas nada fez levantar a poeira que nos circundava, a pesada consternação que por vezes sinto em ti, que por vezes leio em ti...
Disseste-me:
(...)
Nada me disseste tu!
Nada em ti se moveu!
Não foi o ar que se quebrou com tal silencio, não foram as nuvens que se pintaram de escuro cinzento, não foi o tempo que parou, mas sim eu.
Fui eu quem sucumbiu à ausência de graça, à ausência de texto, à pesada gravidade que pairava no teu quarto e que me esmagava contra o chão.
Não quero que me idolatres, não quero que faças Carnaval quando não vejo em ti multidão, pensei eu...
Simplesmente quero que me desejes, que mostres que as palavras podem ganhar sentido e dimensão, que me queres e que o digas, porque dizer não é exigir.
Senti-me pequeno, como alias sempre me sinto, e mais pequeno ainda comparado a minha reflexão que parecia não mais terminar.
Tortura.
Uma ode aos portões do inferno.
Por vezes sinto-me um estorvo, outras vezes uma borbulha que não paras de coçar.
Quero confiar no teu gesto, mas mais ainda no valor que reconheces em mim.
Não quero mais me sentir um estranho.
Sabes que podes largar muito mais de ti nas minhas mãos, do que escavar cegos buracos no silencio.
Confia, simplesmente confia.
Fumei um cigarro.
Desliguei o candeeiro.
Abracei o teu abraço.
Dei lugar ao leve sono.
E tudo em redor deu lugar ao silencio.
Ao meu silencio.
Ao "nosso" silencio.

É quando desço ao particular de ti que me encontro.
O toque é chama ardente, brasa, piroclasto, explosão.
Num toque se faz a eternidade...
Sigo rumo ao teu corpo nu, conhecendo estados de contemplação, segmentos que culminam em prazerosa exaustão.
Não sou eu que se deita ao teu lado, neste chão preenchido de cor, neste cru chão de sentidos.
Mas sim alguém que finalmente se julga fazer conhecer, alguém que simplesmente pode cheirar o odor da realidade, tal como ela é, suja, dura, animal.
Se não tenho palavras suficientes para te mostrar como me sinto, é porque para além de me vir dentro do meu próprio silencio (como sempre...), me engasgo mentalmente em tudo aquilo que me das, em toda a viagem que me proporcionas quando sobrevoo o teu olhar, não restando assim tempo, ou dimensão para a palavra .
Agarro te assim, seguro te entre os braços, mordo o céu acima de nós, e mostro a viva luz, o quanto brilhas dentro de tudo o que sou.
Crias em mim ausência de identidade.
Já não sou mais eu.
Sou antes o teu corpo, a tua palavra, o teu recôndito mundo de sensações, delírios, desejos, e segredos.

"All the evenings spent with her.
All the words,
the magical carelless dreams.
It gets me sad to see you run,
like there were no in- betweens.
Take me in your chest,
ill be floating like a ship,
ill be singing like the breeze.
My cold water dive,
i'll be gentle in every kiss.
Just take me with you,
let me be the dream,
let me be the dream...
My Achilles' heel.
I'll always be here with hopefull desires."