segunda-feira, 24 de outubro de 2011

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Gostava de denunciar este abuso. Este meu abuso de querer sangrar já sem sangue o que o barulho da chuva desta noite me empresta como inspiração para um qualquer manuscrito.
De facto podia e devia me resignar a este e qualquer momento que tem por força me querer arrancar da tenebrosa e intrincada caverna em que vivo.
O monstro que é a vida, venceu-me mais uma vez...
O descontentamento que encontro em tudo, encontrou-me a mim numa esquina de um projecto harmonioso, em que com ele a vida seria tão doce quanto o mel. E Logo aí nos fizemos amigos, eu e o descontentamento...
O dia-a-dia deixa-me aflito, sinto-me a naufragar em estado de coisa incerta, desconfiado e assustado com a possibilidade de assistir aos "dias gordos", gordos de miséria.
Levo a mão ao bolso, e mais farto é o cotão. O maldito cotão que me assola os dias.
Faço de cada pequena moeda existente e presente na minha mão um talismã, um fio de luz que me garante uma ou outra saída da avassaladora caverna em que vivo.
Melhores dias virão, acredito. Antes destes é preciso tomar os "dias gordos" em jeito de cicuta e morrer se for preciso. Nada se faz sem sacrifício... O que se faz sem sacrifício não tem o mesmo mérito, não tem ferida, não tem sangue.
Creio então que já morri, que já sangrei... Só me falta ressuscitar...






segunda-feira, 15 de agosto de 2011

C'est sa

























c'est sa? César.
c´est sa...César.
C'est sa! César!!!
César...
César Caralho!!!!!!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ocupação vs. Distracção - O olhar vazio sobre a matéria.




















Ocupação pressupõe sempre ocupar um espaço e um tempo.
Quando nos ocupamos de alguma coisa a pluralidade de possibilidades entre as variantes tempo e espaço são infinitas. Podemos nos ocupar dez minutos, uma hora, uma semana, um ano ou até mais tempo. Podemos nos ocupar de uma pessoa, de um objecto, de uma matéria, de uma criação, etc.
O que interessa aqui a meu ver, é compreender a tomada de posse, o estar na posse de, o preencher, o encher, o estar, a apropriação do tempo e do espaço que sempre ou quase sempre nos surge num segundo plano em consciência.
Não quero com isto dizer que não traçamos direcções, objectivos nas nossas ocupações com plena consciência deles. Não se trata disso.
O que na realidade dou a pensar é no facto de nunca ou quase nunca pensarmos á partida, na qualidade de se estar enquanto ocupados. Parece que em nossa consciência não habitamos absolutamente nada, quando no fundo habitamos.
Creio que passamos imenso tempo negligenciando a nossa existência presente nas coisas. Isto se entendermos que a existência é (pelo menos por vezes) um conjunto ou propriedade de objectos, uma propriedade primordial como é a propriedade de ser alto ou bonito.
No entanto a verdade do indivíduo existente é, e será sempre um paradoxo. A verdade acerca da matéria que compõe o mundo nunca poderá ser objectiva, universalmente válida, será sempre uma construção subjectiva com aspiração à ideia de objectividade e universalidade encarregues de nos afastar e salvar da loucura.
Portanto ao praticarmos uma ocupação, habitamos sempre um lugar, existimos dentro de uma grelha transparente de propriedades primordiais que constroem o mundo.
Mas o que de facto me interessa é a distracção. O poder da distracção, o movimento da distracção.
Como entendemos nós o que é em senso comum a distracção?
Apenas achamos distraídos aquele ou aqueles que manifestam falta de atenção perante algo ou alguém. Mas creio que a distracção possui mais valor do que á partida parece não ter, visto que a tomamos normalmente e erroneamente, como apenas uma "falta de".
Quando nos distraímos o movimento é tal que se inscreve no rosto. O olhar vazio que se agarra a nós nesse preciso momento possui, a meu ver, mais valor que o olhar objectivo da racional atenção. A distracção não é apenas um acto. É uma viagem, uma visão, um "não lugar" de tempo e espaço na materialidade da realidade dada pela nossa consciência objectiva. Um mundo dentro de um mundo...
Quando nos distraímos o nosso espírito concentra-se!
Abdicamos da consciência do cogito Cartesiano, da consciência do "eu".
O plano passa a ser o da abstracção, onde viajamos no tempo e no espaço sem limites objectivos.
Não somos mais quem tem o controlo, somos antes a carruagem desgovernada do pensamento sem o "eu". O "eu" é pura consciência temporal e espacial.
A distracção liberta-nos tanto da objectividade como da subjectividade acerca do mundo. Nela somos tudo, nela somos o nada, nela não somos! Não existimos! Esquecemo-nos de nós mesmos, vestimos o nosso espírito e mergulhamos em queda livre nesse fragmento, nessa dimensão, pedaço adormecido de mistério e contemplação.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

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Não estamos em tempos de romantismos!
Apesar da debilidade da época, característica essencial à existência do romantismo, há que aguentar a força da vida e torná-la necessária para o progresso.
Não só para um progresso pessoal, como também para uma estabilidade social, quase inexistente na contemporaneidade.
Fatalismos não fazem movimentos.
Resistência e idealismos caminham, potenciam sentidos na vida.
É preciso gritar, gritar desde dentro a força de um sentido que se inscreva no mundo.
Cruzar os braços, mergulhar na inércia, não irá mover desejos ou intenções.
Desejo implica desde logo um movimento, um querer alcançar.
Intenção compromete necessariamente um objectivo.
A inércia que observo não compromete nada disto.
O romântico fatalismo que a sociedade actual traduz só pressupõe inércia.
O destino é feito da impossibilidade de ser aquilo que se deseja ser.
Vamos então viver a impossibilidade, eleger a luta, a resistência a fim de novas realidades.
Não chega traduzir todo o desejo, todas as ambições ou chorar a vida em conversas de café.
Há que trabalhar com urgência o amanhã.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Adulto/adulterar






















É sobre o abismo do espaço branco da existência que desenhamos ou encontramos caminhos pelos quais nos arrastamos.
Vivemos ensaiando-nos como cadáveres adiados, habitando e pensando o impensável de cada pensamento, sendo que estes pensamentos resultam quer da comoção pela qual descobrimos novas realidades na vida, quer pela insatisfação de apetite perante a fútil materialidade que lhe dão corpo.
Por vezes, novos mundos se materializam quando deixamos a maré levar-nos até ao sólido chão da conveniência.
A existência compreende que a directriz a tomar seja aquela que parte (ou encontra a sua génese), quer nos apetites quer nas decisões tomadas pelo individuo.
Isto sugere que a existência através dessas escolhas e apetites adquire diferentes dimensões ao longo da sua temporalidade.
Por vezes tudo nos parece um mar de rosas, outras vezes acontecerá que o mergulho numa má decisão surja como inevitável.
Creio que é este rosto aleatório que a vida nos mostra que nos faz fortalecer e encontrar subterfúgios.
Se pensarmos a contemporaneidade, entendemos que esta exige-nos valores e utilidade.
Em consequência disto o pró-activismo parece surgir como a nova religião em cena, remetendo-nos talvez um pouco para o programa nietzchiano de "Super-homem".
O dever traçado para com a sociedade é o de possuirmos então valores utilitários, ou de outra forma, determinar que as nossas pretensões culminem num efeito das nossas causas, sendo que desta forma ser ser no mundo é na mesma medida dar ser ao próprio mundo.
É esta acção eficaz, força intencional, que resulta das nossas decisões e apetites quer exista, quer não compromisso com a sociedade.
Se vivermos, ou pretendermos viver a vida tal qual obra de arte, não podemos negar a conflitualidade desta acção com a modernidade dos nossos dias.
O inevitável será baixar os braços à evidencia de que a rendição é o melhor dos remédios, abraçando a adulteração, ou melhor, a "acção de adulterar", tão característica da sociedade que nos transforma em adultos (adúlteros), roubando-nos do ventre do mundo, obrigando-nos a chorar o adeus dado da janela de trás do carro que nos leva para longe do estado
infant, desse estado puro em que o silêncio dava lugar à sublimidade do mundo, ao assombro.
Ao ver, sentir, cheirar e ouvir, ao conhecer sem sede de adulterar.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma questão de espírito.




















Quem escreveu sobre o amor, sobre a guerra, e sobre a preguiça dos dias, deixa agora o seu espírito entregue a complaçência da felicidade e do equilíbrio.
A verdade que se figura no horizonte, não é outra senão, a de que a mutação de genialidade, está conjurada á obrigatoriedade com a necessidade dos tempos, com a verticalidade imposta pela ocasião, ou com a prematuridade de um acontecimento.
Definho por isso estas palavras, pois estas sucumbem a magnificência dos meus dias.
Quando parecia antes a palavra ser o fruto das minhas investidas,torna-se agora o fantasma exorcizado, o espírito que partiu o cordão umbilical com o mundo.
O tempo esse passa com extrema rapidez.
O tempo como que uma bola de cristal com pó no seu interior, o mesmo pó que se aloja nas nossas articulações, nos nossos sonhos, no nosso espírito.
Há que possuir a estabilidade suficiente para ter mão leve e consciência sobre a velocidade do tempo.
Rolar com pressa a bola de cristal é cair na alienação, num aroubamento de espírito.
Gosto de me dar ao tempo...
Trouxe-me coisas boas.
Não há funerais da palavra em mim, há antes pensamentos, ideias circundantes que retenho na minha cabeça.
As palavras estão na minha cabeça.
Nunca adormecidas, sempre prestáveis, aguardando a sua libertação.
Estar ou não estar casado com as palavras, para mim é uma questão de espírito.
Encontrar a felicidade...é fazer um enorme achado.





terça-feira, 9 de março de 2010

O exercício de criar/ sonhar






















Quebrei a membrana espessa que liga os meus tomates ao mundo.
Sou maquina lírica, homérica, para além de mero organismo composto de elevações, que dão fundamento ao mundo, aos sonhos, e as formas.
É preciso o entendimento de toda a criação a que me disponho, mas de igual forma é necessário abarcar com sufoco, o trabalho ao qual me entrego.
Sou dono do meu trabalho.
Abano a varinha de
condão, e ergue se perante mim o ensaio, a melodia, o tesão da criação.
É como se não me conseguisse desprender, como se fosse retido por uma força que me parece inexplicável.
A força bruta como resultado da minha natureza.
A arte, a metamorfose, surge no exercício ao qual me obrigo.
Ao predispor o sentido de liberdade e diversidade em mim.
Sem isso envelheceria...